A megalópole de Talkovalak.
Maior até do
que a capital, com imensos muros negros, pode ser vista a quilometros de
distância, pensado desse modo exatamente para facilitar a vida dos viajantes.
As torres mais altas, normalmente
residenciais, tinham seus topos perfurando os céus, a moradia perfeita para os
mais ricos e abastados cidadãos talkovalakianos, ou arys, como
eram chamados.
Enquanto que, dezenas de níveis
abaixo, os grabri, aqueles de vida mais simples se esforçavam para
sobreviver em uma sociedade que pregava igualdade total de direitos, mas que na
realidade todos sabiam que não era bem assim.
Casos de ascensão social eram
raríssimos.
Na maioria esmagadora das vezes, os grabri
nasciam, viviam e morriam em meio ao lixo.
Alguns literalmente.
- Pobre menina...
Num dos níveis mais baixos da cidade
um corpo se encontrava estendido no chão, já coberto por uma camada de Slary,
a típica cobertura de energia, sempre usada para proteger evidências e evitar a
deterioração das vítimas de assassinato.
- Por essa região... Ela, com certeza,
já não podia ser considerada uma menina...
- Sempre esqueço da sua falta de
empatia nessas horas Thirenn... Se não fosse tão importante, para meus
casos, manter laços com uma K'ehtrak...
- Claro que o fato de eu ser linda
conta muito não é Su’renris?
- Um excelente bônus... Isso não
nego...
A conversa e o flerte casuais não
ornavam com a cena dantesca diante do casal de tasllays, os
investigadores da Guthjoan, a força de manutenção da paz da cidade.
A vítima aparentava ser uma
adolescente típica, com roupas puídas e obviamente antigas, até alguns números
maiores do que aqueles que serviriam nela, ainda que tentavam emular a moda
mais recente, de cores fortes e chamativas, não havia dúvidas quanto à origem
humilde da jovem.
Ela fora encontrada caída em um beco,
nos fundos de um restaurante cujas comidas tinham origens ainda mais
misteriosas do que as causas daquela morte.
- Alguma pista do nome da menina?
Parentes, amigos... Inimigos...
Su’renris ficou com sua expressão
ainda mais séria, mostrando para a parceira o rosto da vítima, inteiramente
deformado e derretido, assim como todos os detalhes corporais que pudessem
ajudar na identificação.
- Nada Thirenn... É como se ela jamais
tivesse existido e simplesmente apareceu morta nesse local... Vamos tentar
examinar os traços genéticos, mas se for como as demais vítimas anteriores, nem
isso vai dar algum resultado - o tasllay se ajoelhou e puxou uma pequena lâmina
do interior de seu uniforme, que usou para mexer em alguns pontos do corpo,
principalmente levantando os pedaços de tecido que estivessem cobrindo os
ferimentos espalhados por toda parte. - Maldição... A coitada sofreu demais...
- Quais vítimas de assassinato morrem
sem sofrer? - a investigadora se concentrou e suas roupas comuns deram lugar à
armadura de K'ehtrak, através do movimento de centenas de nanorrobos, os
konras. - Só nos resta trazer-lhe justiça e torcer para que isso lhe acalente a
ra’ki... Agora se me dá licença...
Thirenn não acionou seu capacete, ela
precisava dos quatro olhos livres para o que faria a seguir, além de seus
outros vários sentidos, estes acabavam sendo ampliados e focados pela armadura.
Os globos oculares emitiram um brilho
dourado e então a investigadora os dirigiu para o corpo da jovem assassinada,
depois olhou ao redor, voltou e ficou alguns minutos com os olhos fixos ,ais uma vez no corpo.
- Incomum... - ela falava mais para si
do que para o companheiro investigador, enquanto andava pelo local, como que
procurando algo que realmente deveria estar ali, até finalmente se voltar para
Su’renris. - É como se ela nunca tivesse tido uma Ra’ki... Não há o mínimo vestígio
ao redor, aliás nem da dela, nem de qualquer outro ser vivo... Estamos num Shrastar...
- Por favor, me trate como um leigo
total em suas habilidades... o que não está longe da verdade... E me explique o
que é isso.
- Um Shrastar é como nós, as Twinpaks, ou seja, as navegadoras
astrais, chamamos os locais onde não existe nenhuma vibração ou resíduo
espiritual, uma área totalmente estéril, no que diz respeito ao mundo
espiritual, o Jevanorwig...
- Então... - o tom sarcástico do investigador
era palpável. - Você não tem todas as respostas nesse caso? Isso seria algo
inédito! Eu devia ter dado um jeito de gravar...
Antes da twinpak ter a chance de rebater a brincadeira do investigador, um
som agudo se fez ouvir e logo uma pequena criatura desceu dos céus, se
colocando sobre o ombro de Su’renris.
- Seja bem vindo Kezac... Algo
suspeito pela área?
Os La’ut eram considerados por
muitos como simples animais curiosos, pequenos seres alados de pelugem macia e
negra, durante anos eram mantidos presos em zoológicos e, o mais absurdo,
usados em laboratórios, mas aqueles que aceitam quando um deles tentava entrar
em simbiose mental, descobriam a verdade.
Eles são são inteligentes quando
qualquer uma das raças dominantes de Sinktra, apresentando apenas uma dificuldade
imensa de comunicação, que se dá quase que unicamente por contatos mentais,
exatamente com quem aceita a ligação entre sua Ra’ki e a dos la’ut, conseguindo
assim um companheiro fiel para a vida inteira.
As primeiras Jadari, como ficou
sendo chamada a simbiose, resultou em embaixadores que, contínua e arduamente,
batalhavam pelos direitos dos la’ut de serem considerados cidadãos e não apenas
animais.
Foi durante a investigação de um
assassino serial que Su’renris encontrou Kezac, que também era um tipo de
investigador entre seu povo, ambos enfrentaram o criminoso, quase morreram, o
que os forçou a criar uma jadari para sobreviver e conseguir prender o
criminoso.
- Como assim nada? - para Thirenn,
Kezac apenas soltava vários guinchos de resposta, enquanto fitava seu parceiro,
mas Su’renris respondia como se ambos estivessem falando a mesma língua. - Não
é possível que essa coitada tenha simplesmente aparecido aqui do nada...
Estamos deixando passar algo...
“Com certeza estamos todos...”
O investigador conseguiu disfarçar o
sobressalto quando uma voz conhecida ressoou por detrás dele, dando alguns
passos para o lado conforme ele e sua colega se viravam para uma parede
próxima.
As edificações Talkovalakianas eram
quase todas feitas basicamente de hatcon, um minério escuro, exclusivo
do continente de Ahsurdira, que possui uma capacidade especial de reter o calor
vindo de Tanee, o sol prateado, além de, em alguns casos, conseguindo
absorver o calor do sol prateado e convertê-lo em energia.
Foi de uma parede feita de hatcon que
uma estranha forma de vida pareceu brotar, na verdade era algo com um corpo
basicamente composto por uma cabeça disforme, dois braços extremamente longos e
pernas cujos pés eram pequenos, parecidos com os cascos de um animal.
“Olá queridos companheiros...” sua voz soava etéria, quase tanto
quanto seus movimentos fluidos, os braços balançando de forma displicente,
assim como todos os utbruk “Thiren, terminei minha busca e, infelizmente,
tenho de fazer coro com o pequeno Kezac... Nada há por aqui e quando digo nada,
devo reforçar nada mesmo... Nunca estive num local tão... Impossivelmente vazio...”
- Obrigada Galabarnon... -
Estavam literalmente num beco sem saída. - Nada disso faz sentido...
Enquanto a equipe debatia e tentava achar
alternativas, uma vez que os meios usuais de investigações, bem como os
derivados de suas habilidades únicas, não haviam dado em nada, longe dali um
pai de família retornava para sua casa.
- Morgat? - nos aposentos que o
arys acabara de entrar, sua esposa ergueu os olhos sonolentos na direção dele.
- É você? Que suras são agora? Você foi vê-la?
- Estamos no meio da arital minha
vida... E eu sempre dou uma passada para ver se ela está dormindo direito...-
ele se aproximou do leito, se deitou e então virou para o outro lado. - Volte a
dormir Tauge... Nos falamos melhor pela twira...
Em poucos instantes ambos adormeciam.
O dia se iniciou quando os primeiros
raios do sol prateado refulgiram sobre a megalópole, fazendo com que Morgat se
levantasse antes de seus familiares, lhes preparasse os desjejum, pretendendo
sair antes que alguém acordasse.
Falhou miseravelmente.
Quando estava para seguir na direção
da porta, uma voz infantil chamou sua atenção, mal lhe dando tempo para se
defender do ataque de uma pequena criatura, que abraçou seu pescoço até
deixá-lo quase sem ar.
- Fotne! - sua filha ria um
riso gostoso, livre de preocupações maiores do que mostrar ao pai o quanto o
amava. - Pelos deuses! Quem é você e o que fez com minha pequena? Quando foi dormir
ontem era desse tamanho...
Ele juntou as mãos, num gesto que
indicava o tamanho de um recém nascido, o que provocou ainda mais risos na
filha, tão altos que até mesmo sua esposa desceu as escadas que levavam para o
andar dos dormitórios.
- Não se pode mesmo dormir até tarde
nessa casa, não é? - o tom era de censura, fazendo pai e filha se abraçarem
comicamente, segurando os risos que tal situação provocava. - Quem é o culpado
por essa bagunça?
De imediato, Morgat entregou a filha
para sua esposa, o que provocou mais risos e broncas de brincadeira por ter
sido entregue tão facilmente à “grande castigadora” que, rapidamente se jogou
sobre um dos confortáveis móveis da sala, enchendo a filha de cócegas.
- Ela despertou bem melhor hoje não é?
- vendo que o esposo estava para se retirar, o semblante de Tauge se fechou. -
Não vai comer com a gente?
- Infelizmente não minha vida... - com
genuína tristeza estampada no olhar, Morgat se despediu de sua família, com
toques gentis em suas frontes. - No trabalho não fazem nada até eu chegar, por
isso tenho que esta lá cedo.
Dizendo isso ele se retirou.
Em poucos instantes ele já cobrira a
pouca distância que separava sua casa da Torre de Gahka, a deusa da
saúde, onde fazia o serviço de arquivista, controlando todos que passavam pelos
cuidados dos Lewye, os médicos de Talkovalak.
- Seja bem vindo Morgat!
- Que sua Twira seja abençoda!
- Nos vemos na refeição, certo?
O caminho até a sala onde ele
trabalhava foi feito em meio a vários cumprimentos, por estar a muito tempo
cumprindo aquela função, Morgat viu ir e vir vários funcionários, desde os
médicos ao pessoal de limpeza e, por não fazer diferença na forma que os
tratava, se tornou um dos funcionários mais antigos e queridos, daquela torre.
Claro que, para ele, havia um motivo
oculto para se manter por tanto tempo ali, principalmente após algums eventos
recentes.
Durante o seu período de trabalho ele
organizou, separou, despachou as fichas de centenas de pacientes, fosse os que
ainda permaneciam na torre para serem atendidos, como os que já haviam recebido
alta.
- Ah... Finalmente... - ele fez surgir
diante de si uma tela holográfica, analisou as informações ali contidas e,
assim que as transferiu para seu aparelho pessoal, seu dakpox alterado, para
não deixar rastros, ele apagou todos os registros do banco de dados da torre,
com uma expressão sinistra de satisfação no rosto. - Perfeita... Simplesmente
perfeita...
Passou o restante do dia com o
costumeiro bom humor, os colegas com quem ele havia tido contato comentavam
entre si que, na verdade, ele parecia ainda mais feliz que o normal, mas todos
associavam tal comportamento ao fato da filha aparentemente estar melhorando.
Diagnosticada com uma terrível e
incomum doença genética, os lewye disseram que se a pobre Fotne sequer
alcançasse a idade de dar os primeiros
passos já seria um milagre.
Com o aniversário de dez korh se
aproximando era de se esperar que seus pais estivessem radiantes de felicidade.
Eles encaravam cada dia como um
milagre.
Quando o expediente se encerrou,
Morgat se despediu dos colegas, tendo que educadamente declinar de vários
convites para ir a algum dos centros de recreação próximos, solidificando assim
ainda mais a sua imagem de bom esposo e excelente pai.
Conforme os últimos raios de Tanee, o
sol prateado, se estendiam por sobre a cidade, deixando o céu numa coloração
mais escura, com as estrelas surgindo, as luzes artificiais da cidadela iam se
acendendo, dentro das residências ou mesmo pelas vias de trânsito.
Morgat, no entanto, não prestava
atenção em nada disso, com os quatro olhos fixados em seu dakpox, ele seguia na
direção de uma região considerada insegura e, desse modo, evitada, tanto pelos
habitantes, quanto pelas autoridades.
Ou seja, perfeito para o que ele
precisava fazer.
Longe dali, em um apartamento
localizado num edifício residencial simples, numa área intermediária entre a
população rica e a pobre, os dois residentes discutiam.
“Devo reiterar o quanto acho essa
ideia... Deveras idiota...”
- Anotado Galabarnon... Anotado...
Agora faz silêncio, por favor...
Thirenn estava diante da imensa
vidraça, que fazia as vezes da parede direita da sala de seu apartamento. Ela
se mantinha apoiada sobre uma das pernas, mantendo a outra erguida, joelho
dobrado de modo a tocar a outra coxa com a ponta dos dedos, o braço direito
esticado paralelamente ao corpo, enquanto a mão esquerda mantinha os dedos bem
abertos no meio da área do peitoral.
Para realizar o que ela queria era
necessária muita concentração.
- Quase lá... - a voz foi
enfraquecendo, se tornando quase etérea, como num sonho. - Cuide direito do meu
corp...
A frase foi interrompida quando,
direto dos quatro olhos de Thirenn, surgiu uma poderosa luz dourada, muito mais
intens do que antes, que pode ser apreciada pelo utbruk, cujos sentidos eram
todos enviados para o di’hat, o mineral senciente que formava seu núcleo
vital, através da proteção de rocha escura que Galabarnon escolhera ao
despertar.
As luz foi diminuindo, até assumir uma
forma feminina basicamente igual a de Thirenn, mas cujos corpo apresentava
diversas linhas de energia, no rosto já não havia uma boca e nem mesmo as
narinas e no alto da cabeça ela exibia dois pares de chifres.
Diante do utbruk, iluminando o
ambiente estava a Gal-kzer.
Era a representação máxima dos poderes
da Twinpak e o grande motivo da Irmandade Tarhatja ter feito de tudo para que Thirenn, ainda na
mais tenra infância, fosse iniciada nos caminhos das navegadoras astrais.
As Kiellas, suas
mentoras, diziam sempre que, no máximo, as escolhidas antes dela apenas
conseguiam acessar mentalmente o mundo astral, após muita concentração e com a
ajuda de vários aparelhos, claro.
Thirenn foi
a primeira a conseguir idealizar um construto de energia capaz de existir tanto
no plano real quanto no Jevanorwig, um prodígio, diziam.
Por isso foi
tão difícil quando ela decidiu sair da torre para ingressar na Ordem de Akron,
se tornando uma K'ehtrak que, segundo sua visão, poderia atuar mais ativamente
para ajudar quem precisasse.
Tendo a
ajuda de outro K'ehtrak ela cortou laços com as Kiellas, conseguindo assim
atuar por todo o continente de Ahsurdira, acabando por fixar morada em Talkovalak,
rapidamente se integrando à Guthjoan.
A Gal-kzer
acenou para Galabarnon e
rapidamente atravessou a vidraça do apartamento, aquela forma não seguia as
leis da física, conseguindo atravessar qualquer objeto sólido, paredes,
veículos, pessoas, por isso, em poucos instantes ela se encontrava no local
onde fora descoberta a vítima, cujo assassinato foi o motivo de terem trazido-a
para o caso.
Ao alcançar o local imediatamente ela
se concentrou, expandindo sua energia astral tocando tudo e todos ao seu redor,
ela tentava recriar como se deu a morte da jovem, desse modo esperava
conseguir, ao menos, uma visão de seu rosto, o que ajudaria a identificá-la.
Para sua completa frustração não havia
nada.
O Shrastar ainda permanecia, toda a
área ao redor não reverberava nenhum tipo de energia espiritual, realmente se
formara ali um bolsão onde nada vivia, mas ela percebeu que a área que ele
ocupava estava menor do que no dia anterior.
Mesmo assim, a frustração aumentava e
ela estava prestes a desistir, aceitando que não conseguiria levar justiça para
a garota morta e começou a voar na direção de sua casa.
Foi quando aconteceu.
Primeiro foi algo que parecia o som de
um grito de agonia que, ao alcançá-la, reverberou por toda sua forma astral,
formando ondas como as de uma pedra sendo lançada em um lago.
A primeira reação foi de voltar o mais
rápido possível para seu corpo, se esconder em algum buraco e permanecer desse
jeito até o fim dos seus dias, ou seja, o modo mais comum de reagir àquilo.
Era, afinal de contas, um An-bald,
um lamento de morte.
Ao conseguir se controlar e olhar para
a direção de onde viera o som, ela percebeu algo como um domo de energia se
erguendo sobre uma área próxima e antes que ela pudesse sequer pensar em uma
reação, ele implodiu violentamente, causando uma onda de choque que não causou
dano algum nos prédios, veículos ou pessoas do mundo real, mas que foi capaz de
jogar a Gal-kzer longe.
Poucos
instantes foram necessários para que ela se recuperasse e, mergulhando no reino
astral para aumentar ainda mais sua velocidade de deslocamento, alcançasse o
local da implosão.
- Ô sudru! -
a interjeição, que teria lhe rendido uma imensa bronca da mãe, externava
perfeitamente o que passava por sua mente. - Maldição!
Nas horas
seguintes Thirenn voltou para seu corpo e, depois do tempo necessário para se
reajustar à saída da existência astral para a realidade, entrou em contato com Su’renris e logo ambos estavam ao
redor de mais um corpo.
- Tudo igual... - o investigador
compartilhava da frustração de sua companheira, mas em seu caso muitas vezes
ele precisava descontar a raiva de forma mais física. - Maldição!
Ele se afastou, chutando restos de
lixo abandonados pelo chão daquele beco, praguejando tão alto que, a cada vez
que algum morador ali perto aparecia, observando-os por uma janela apenas para
ver o que acontecia ou reclamando do barulho, ele mandava ir embora sob ameaça
de prisão.
Claro que ele jamais faria algo assim,
mas os moradores dos arredores não tinham como saber, acabando por obedecer,
xingando baixinho para que ele não escutasse.
Enquanto a investigação prosseguia,
Morgat chegara em casa e foi direto para o quarto da filha, sentando ao lado
dela em sua cama, vendo-a dormir tranquilamente, mas tal paz não durou.
Quando ela se moveu, ainda sem
despertar, deixando claro pela sua expressão, que estava sentindo dor, o pai
não pensou duas vezes, estendendo sua mão direita, tocando o rosto da criança
com seus três dedos.
Filamentos azulados de energia
conectaram pai e filha e pouco a pouco ficou evidente que a dor e desconforto
da pequena foram se dissipando, permitindo que ela voltasse a dormir de forma
serena.
- Em breve minha filha... Em breve...
Só então ele voltou para sua cama,
dessa vez sem acordar sua esposa, sentindo um certo desconforto no peito, mas
dizendo para si mesmo que estava tudo bem.
Ele nem fazia ideia do pesadelo que
aconteceria no dia seguinte.
Morgat havia seguido sua rotina à
risca, mas assim que as portas de sua sala se fecharam às suas costas, ele caiu
de joelhos, as mãos apertando sua cabeça, um dor lancinante atravessando seu
crânio, que parecia arder em chamas por dentro.
“Chegou a hora.”
- Não! Eu... - em desespero ele
respondia à voz que ressoava em sua cabeça. - Eu preciso de mais tempo! Eu
imploro...
“Não foi esse o acordo...” a voz era sibilante, ainda que
gutural, causava nojo e ojeriza, o que forçou Mordet a regurgitar todo o seu
desjejum “Dei-lhe os meios, dei-lhe o poder e tempo suficiente para
alcançar seus objetivos...”
- Poder que precisei entender... - dos
quatro olhos agora vertiam lágrimas, ele falava por entre os dentes trincados
de dor. - Que levei tempo demais para aprender a usar... Eu não imaginei que
seria assim... Por favor... Estou tão perto... Preciso de mais temp...
A frase foi interrompida por um
violento repuxão de dor na garganta do valpak, que a sentiu se expandir e
retesar, impedindo-o sequer de respirar e, finalmente entendendo o que iria
acontecer, caiu deitado no chão, em posição fetal.
Sua mente só registrava as imagens da
esposa e da filha, do ato de desespero de fazer um pacto com o maldito Newrath,
uma criatura mítica dos confins da Promakzod, a dimensão infernal de
Sinktra, cuja existência ele imaginava ser apenas lendas, um meio criado por
certos religiosos para manter seu fiéis sob controle.
Mas quando ele recebeu a notícia sobre
a desconhecida condição clínica degenerativa de Fotne, durante uma consulta de
rotina na Torre de Gahka e depois de passar por todas as possibilidades, desde
consultas com outros especialistas, a diversos tratamentos alternativos, Morgat
se encontrava mergulhado em desespero.
O alvo perfeito para a perfídia de um
demônio.
Ele se apresentou como uma criança,
muito parecida até mesmo com Fotne, uma outra maneira que a criatura usava
muito para enganar suas vítimas.
Não foi necessário muito mais do que a
promessa de dar ao pai poderes para salvar a vida da filha e logo o pacto fora
firmado.
E como na maioria esmagadora dos casos,
Morgat foi enganado.
E era chegada a hora de pagar.
Os funcionários da Torre, que passavam
diante da porta do escritório do arquivista, foram as primeiras vítimas quando,
após ouvir um grito de horror ecoando pelos corredores, uma barreira azulada se
expandiu violentamente, fazendo todos caírem no chão, suas energias vitais
arrancadas violentamente de seus corpos.
Tal perturbação atingia tanto o mundo
real quando o reino astral e foi sentida por toda cidade.
Em instantes a forma Gal-kzer de Thirenn se dirigia ao local,
enquanto seu corpo vinha no veículo oficial de Su’renris. Assim que ela chegou
não conseguiu esconder a surpresa o ver um tipo de esfera de energia se
expandido, aparentemente, de dentro da torre.
O primeiro a alcançá-la foi
Galabarnon, que surgia do chão.
“Isso é o que eu penso que é?”
- Com certeza amigo... Nunca vi uma
concentração tão forte de energia astral negativa... - a Gal-kzer sentia sua
energia corporal oscilando, o que exigia ainda mais concentração para se manter
coesa. - Só pode ser uma Kor-zoq...
“A energia que a tudo consome...
Deixando para trás apenas o vazio...”
- Foi o que as Kiellas nos falavam... Mas mesmo as mais velhas diziam que nunca haviam
visto esse fenômeno...
“E o que
faremos agora?”
- Nós
nada... - ela começava a flutuar para longe do amigo. - Você fica aqui, avisa
para que o Su’renris evacuar toda a área, não deixa ninguém tocar
essa energia e então cuida do meu corpo... O resto é comigo...
“Preciso
questionar o que você pretende fazer?”
-
Obviamente... Algo muito idiota.
E então ela
mergulhou no Kor-zog.
Houve um
momento em que tudo era uma luz branca, depois azulada, branca de novo e depois
azulada, sem sons, nenhum sentido sendo devidamente estimulado.
Era tudo paz
absoluta.
Thirenn
sentia-se aquecida, bem vinda, imaginava que era assim que um feto deveria se
sentir no ventre da mãe, por isso ela se abraçava, pronta para ficar naquele
lugar para sempre.
De repente,
dor.
A primeira
pontada veio do ombro esquerdo, depois na coxa direita e em instantes a agonia
se espalhava por todo seu corpo, trazendo-a para a realidade, relembrando em
instantes o que estava fazendo ali de verdade.
Seus
sentidos despertaram totalmente e ela se viu flutuando pelo Kor-zog, o ar
estava eletrificado, distorcido, vários funcionários da torre estavam caídos,
de seus corpos parecia escorrer uma energia dourada, que evaporava e ia
desvanecendo, restando um pequeno fio dourado que sumia pelo teto daquele
andar.
Não havia
tempo a perder.
Ela se
concentrou, conseguindo assim manter a a estrutura de sua alma, subindo pelos
andares onde percebia que as energias vitais que estavam sendo sugadas, partiam
não apenas dos funcionários, mas também, de pequenos animais e até das plantas.
Novamente
ela usou o caminho pelo reino astral para chegar até a fonte daquele evento e
quando voltou para a realidade sua surpresa foi imensa, ao ver uma criatura
cuja simples existência era uma impossibilidade.
O centro do
Kor-zog havia assumido uma forma, se mantendo ereto, as penas eram pequenas,
mas musculosas e arqueadas, o tronco exibia uma cintura afinada e um peitoral
largo, de onde desciam dois imensos braços, cujas costas das mãos tocavam o
solo.
O pescoço se
alongava até terminar no que parecia galhos retorcidos de uma árvore morta, com
uma labareda azulada crepitando.
No meio do
pescoço flutuava algo que lembrava uma máscara, com os cantos superiores
retorcidos e envolta num brilho fantasmagórico.
Das chamas
azuladas no alto do pescoço da criatura, foi disparada uma explosão silenciosa
de luz e conforme ia consumindo as almas de dentro da sua esfera de influencia,
o Kor-zog parecia se contorcer em agonia.
Alguns
filamentos dourados desapareciam, deixando claro terem sido totalmente
consumidos.
A Gal-kzer
não tinha tempo e nem opções, por isso seguiu um dos conselhos que uma de suas
mentoras havia dado, nos primeiros dias da irmandade Tarhatja.
“Se estiver
em dificuldades, se tudo estiver contra você... Encare os obstáculos de frente
e os acerte até eles saírem do seu caminho, ou até destruí-los.”
E foi o que
rela fez.
Enterrando
seu punho direito no peitoral da criatura, a Gal-kzer liberou um jorro de sua
própria energia, sem outra escolha ou ideia, só lhe restava torcer para que a
sua força suplantasse a do monstro, o sobrecarregando.
Ambos
emitiram um urro animalesco conforme suas formas astrais pareciam se mesclar,
se fundir, forçando o campo de distorção a se expandir, ameaçando encobrir até
seus companheiros que haviam permanecido no chão.
A mente de
Thirenn se recusou a perder, era algo que ela simplesmente nunca aceitava como
resultado de alguma de suas lutas, por isso ela se concentrou ainda mais, num
último esforço desesperado.
“Papai.”
A voz da
filha ressoou na mente de Morgat, dando forças para que ele enfrentasse a fome
de almas a que o Newrath havia lhe instigado.
Só então,
com ambos entrando num tipo de sincronia, foi possível interromper o fluxo das
energias astrais, os filamentos voltando para aqueles que ainda não haviam sido
completamente absorvidos, causando uma silenciosa implosão.
Thirenn
despertou em seu apartamento dias depois, vendo que não apenas Galabarnon, mas também Su’renris e até
mesmo Kezac haviam se alternado na vigília até que ela despertasse.
Antes mesmo de se levantar e dar
alguns passos indecisos até a imensa vidraça de sua casa ela questionou o que
havia acontecido após ela apagar.
O investigador explicou que o corpo
dela havia despertado por um instante, disse algo como “está vindo...” e perdeu
os sentidos, mas foi o sinal de que a Guthjoan esperava para invadir a torre e
finalmente ver o que havia acontecido.
Claro que ninguém conseguiu uma
explicação plausível, no fim apenas os resultados contaram, com cerca de
quarenta mortos, mas dezenas de outros sobreviventes, entre funcionários e
pacientes da torre.
- No fim, o importante é que,
aparentemente, acabou e, agora que você acordou, podemos relaxar um pouco...
- Não tenho certeza disso, Su’renris -
a investigadora fazia afagos atrás de uma das orelhas de Kezac, enquanto
permanecia olhando o horizonte. - Não tenho certeza mesmo...
Longe dali uma valpak estava a horas
sentada numa praça, ainda sem conseguir registrar a informação sobre a morte de
sua filha, finalmente perdendo a luta contra uma terrível doença, poucos dias
depois de seu marido ter sido dado como um do mortos no que os veículos de
informação estavam chamando de “Massacre da Torre”.
De seus quatro olhos vertiam lágrimas
fartas, o corpo apresentava pequenos tremores, entre um soluço e outro, o desespero
atingindo níveis impossível de mensurar.
Naquele momento ela aceitaria qualquer
meio que lhe fosse apresentado para explicar como sua vida se tornara um
pesadelo completo.
Ou seja, uma presa fácil.
- Olá Tauge... - um valpak se sentou
ao lado dela, a tristeza era tamanha que não foi possível perceber e nem sentir
a aura demoníaca que exalava dele. - Eu posso lhe revelar quem é a verdadeira
responsável pelas mortes de seu marido e filha... Mas para isso, vou precisar
que você faça... Pequenos trabalhos para mim... O que me diz? Meu nome é... Thara’nur...
E então o Newrath estendeu sua mão.
Fim.

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